sexta-feira, 28 de maio de 2010

101 anos de saudades. E de solidão.

Guilherme Peace
Da reportagem Mogi News


Foto: Adriano Vaccari




    Duas Guerras Mundiais, a bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, o naufrágio do Titanic, a Crise de 1929, o governo e a morte de Getúlio Vargas, a Ditadura Militar no Brasil, o início da democracia no país e a posse de 24 presidentes da República. Estes são apenas alguns dos acontecimentos que a aposentada Virgínia Cândida de Jesus acompanhou, em seus 101 anos de vida, completos na última segunda-feira.
    Natural de Lençóis Paulista, dona Virgínia hoje mora em Mogi, no distrito de Jundiapeba. Devido a complicações físicas causadas pela idade avançada, a aposentada centenária não consegue se locomover sem a ajuda de uma bengala, e passa a maior parte do tempo deitada em uma cama na sala. No entanto, todo o tempo de vida não afetou sua lucidez. Com a voz tímida e o sorriso de gente simples, dona Virgínia chega a fazer diversas brincadeiras, enquanto relembra um pouco de sua trajetória. “Acho que o que me fez viver tanto foi o trabalho”, ela conta. “Trabalhei muito nessa vida”.
    De modo bem humorado, a aposentada relembra de pequenos fatos do passado. “Conheci meu marido em um baile, há quase um século”. E sorri. “Não esperava que fosse viver tanto. Já tenho até tataraneto”. Quando se perguntam quantos descendentes já tem, dona Virginia se esforça, mas não lembra. Sempre sorridente, ela explica: “Se eu tivesse dinheiro igual tenho netos e bisnetos, estaria rica”.
    Mesmo com as delimitações impostas pela idade, dona Virgínia continua cuidando da família. “Se vejo uma das minhas filhas (que chegam a ter 60 anos) aprontando algo, dou-lhe uma bengalada”. Orgulhosa, a aposentada mostra sua carteira de identidade, onde uma foto de quando era mais jovem, provavelmente tirada ainda nos anos 1950, ilustra os dizeres de “brasileira não alfabetizada”. Para dona Virgínia, isso não foi obstáculo. “Nunca tive estudo, mas trabalhei duro na roça, para criar meus filhos. Só sinto falta da companhia do meu marido”. O marido Manoel Brasil faleceu há anos, mas dona Virgínia não se lembra quanto tempo ao certo.
    E ela espera continuar, sempre sorrindo. “Sei que não vou mais muito longe”, diz com naturalidade, como se falasse do tempo. “Mas a força, ainda tenho. Agora é esperar”.




Esta reportagem foi originalmente publicada no jornal Mogi News, a 19/05/2010


PS.: Sei que não faço mais parte da turma, mas continuo me sentindo como se ainda fizesse. Espero que não se importem com minha invasão, e que gostem do texto.

3 comentários:

  1. Que que e isso, Gui?!
    O texto tá ótimo e até donde eu sei tu é muito bem vindo aqui, rapaz.
    Antes mesmo de ler o seu “PS”, comentei com a Joelma: “Ce viu, ô, até o Gui que ta à noite posta no blog da sala e você nada, garota!”.
    O texto tá excelente, cara.
    Abraço.

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  2. Fazendo minhas as palavras do colega acima, 'o texto tá excelente, cara.'
    Você, como sempre escreve muito bem, e é bem vindo sempre que desejar.
    Bonita história da tataravó, né Gui???


    Grande beijo, garoto!

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